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Border protection ou “foi por medo de avião”



João Martinho de Mendonça


“Viver nem não é muito perigoso”, escreveu Rosa sobre a travessia, em Minas. Um brasileiro foi morto no metrô de Londres, confundido pela polícia, como fosse um criminoso, que merecia ser perseguido e alvejado. Essa era a lembrança indesejável que me ocorria às vezes. Brasileiros fazem muitas festas em Londres, encontram empregos e até juntam dinheiro, ao passo em que podem ser deportados ou presos. Tudo isso poderia até fazer sentido no senso comum, numa lógica do mérito, onde vence quem mais se esforça. Bem ou mal, “quem procura, acha”, diz o dito popular. Mas o brasileiro confundido pela polícia certamente não procurava morrer de morte matada, no buraco de um trem, estava só de passagem...


As cidades de Londres e Nova Iorque têm qualquer coisa historicamente anexada, que impera. Um amigo americano-brasileiro disse que eles (americanos) seriam um tipo de ingleses traidores, em referência aos episódios da independência, quando deixaram de ser colônia da Inglaterra. Digo “americanos” pois é o modo como eles se autodenominam. Outro dia fui numa festa de brasileiros em Nova Iorque, mas foi pelo zoom e eu não estava fisicamente lá, senão como mais uma imagem na telinha do laptop, junto com umas 300 pessoas. O mundo está virado de vez e o tempo-espaço cada vez mais relativo.


Vou contar então como cheguei em Nova Iorque, de corpo presente, vários meses atrás. Saí da nave e fui achar a fila da imigração. Haja corredor e esteira rolante, gente de todo tipo. Tinha uma fila para várias máquinas de ler passaporte, fui até uma delas, não leu, tentei de novo, não leu, mandou voltar. Voltei, olhei de novo a placa, peguei outra fila, gente pra perguntar não havia. Aqui e ali policiais, “todos armados até os dentes”, com o rosto e cabeça cobertos, nem sei se podiam escutar alguém que lhes dirigisse a palavra. Acabei perguntando, me apontou outro caminho, peguei novo rumo. Encontrei duas pessoas na fila, uma de máscara antivírus tipo N-95, à minha frente, e uma senhora simpática atrás. Estávamos em Fevereiro, bem no começo.


Conversamos um pouquinho enquanto esperávamos, mas pensei comigo: será que podemos conversar aqui? Será uma atitude suspeita? Balela! Estava entrando no reino da liberdade, da constituição de mais de 200 anos, “freedom! That's the way!” Câmeras por todos os lados, avisos e proibições, do tipo “se filmar aqui dentro sem permissão, a lei é essa, de n° X, e o procedimento da sua detenção será assim, cf. instrução Y”. Tudo bem organizadinho. Pra mim que tenho um pouco de medo da polícia, mesmo não sendo visado, cor da pele classificada na categoria “raça branca”, sem tatuagem à vista, sem nada escondido ou que destoasse de “pessoas cinzas normais”, confesso que não estava exatamente tranquilo, tudo era “novidade quente” e estava ansioso pra chegar logo do outro lado.


Não lembro como começou a conversa, aquela coisa, dizer algo qualquer, só pra ter o que falar mesmo, num minuto de espera, antes de passar no cercadinho blindado e entregar os documentos ao guarda, pelo vão do vidro, responder uma ou outra pergunta simples, mas decisiva. A mulher tentou me acalmar, era aquela pessoa que já tinha feito essa viagem várias vezes, desde muito tempo. Contou então de Nine-eleven, 11 de Setembro, a derrubada das torres gêmeas por um avião guiado, muita gente morta, após o que o controle de imigração estava bem mais rígido, a ponto dela própria ser revistada e interrogada, em função de pequenas bolinhas brancas num potinho, glóbulos homeopáticos na bagagem de mão, tratamento de saúde dela. Isso fazia quase dez anos, ela notou como agora tudo estava muito mais informatizado e que, naquela época, havia muito mais policiais neste setor.


Nem sei se devia contar essas coisas, esses tempos são estranhos e às vezes é melhor ficar quieto. Pra encurtar a história vou dizer que um papel impresso que chegou pelo correio, com um carimbo assinado, mais o “visto”, que fui buscar lá no consulado dos EUA no Brasil, antes de mais nada, me ajudaram a entrar, junto com meu passaporte brasileiro tipo “mercosul”, um caderninho azul escuro com estrelas douradas, cheio de códigos. Não vou falar das taxas cobradas pra tirar esses documentos antes de viajar. Não fui revistado nem interrogado, ao contrário, fui muito bem tratado, sem aquela simpatia que o brasileiro tanto preza, é certo, mas passei, sem maiores constrangimentos, agradeci e ouvi uma palavra encorajadora até, vinda do agente por trás do vidro blindado, “you're welcome”, depois de conferir toda minha documentação e registrar tudo lá nos computadores deles. Justo, botei fé. Foi um tempo bom, frio, com Fog e táxis amarelos na saída.


Um pouco depois, veio então a pandemia, com força, meses de quarentena, shelter in place order. Em Junho, a morte injusta de George Floyd, entre inúmeras vítimas de brutalidade policial, gerou revoltas violentas, decretaram o Curfew, toque de recolher. “Ninguém saía de casa e as ruas ficaram desertas”. Encontrava gente pela telinha do computador ou do smartphone. Minha sorte é que fui acolhido por uma família americana, eterna gratidão! “Eles têm carro, eles têm grana, eles têm casa e a grama é bacana”. Confortava-me saber que, pra eles, black lives matter! Mas chegou o ponto de não saber mais até quando ia ficar, se poderia voltar, ou mesmo se ia sobreviver... Ninguém sabia ao certo, estava “longe de casa há mais de uma semana, a milhas e milhas distante...”. Pasmem: vi notícias de estados defendendo a liberdade de não usarem máscaras em locais públicos. Freedom? Bullshit!!!


“Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou, vou-me embora pra bem longe”. Da próxima vez vou contar como voltei, finalmente, depois de cancelarem meu voo e de me cobrarem duas vezes a bagagem despachada. De como viajei ao lado do homem que havia contraído a COVID-19 em Nova Iorque, juntamente com toda sua família, seu cunhado trabalhava lá como policial. Nem sei se deveria contar tudo isso, tempos estranhos, “eu nunca mais vou dizer o que realmente penso”, mas tenho impressão que algumas coisas muito erradas precisam mudar nessa fronteira, entre ser “brasileiro” ou “americano”. A gente acha que sabe o que é, depois estranha, vai e volta. Quem sabe “foi por medo de avião”, vá lá, “o que a vida quer da gente é coragem”, como disse Riobaldo, na travessia...


P.S.: Se você reconheceu frases que estão entre aspas no texto acima, é um sinal de que sabes bem “qual é a música”, quiçá ainda nos encontraremos numa dessas festas virtuais de brasileiros pelo mundo.




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