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Carta do Caos



Passos, 28 de setembro de 2020.


Querido Jony,


Nem vou perguntar se está tudo bem, porque eu sei como está se sentindo nesse primeiro dia de distanciamento social. Aliás, eu sei tudo sobre o que você vai viver nos próximos seis meses e claro que ia usar essa oportunidade pra te contar. Nas primeiras três semanas, você vai fazer várias coisas legais para ocupar seu tempo livre. Vai ter festa online, jogos virtuais e desfile de fantasias. Vai conhecer novos podcasts, fazer artesanatos e começar alguns cursos de desenho. Afinal, você acha que as pessoas vão seguir o isolamento e isso vai acabar rápido, né? Então tentará aproveitar!

Depois disso, você vai se cansar. Nada vai te tirar do colchão, não tem por quê! Você vai ficar irritado com sua família e seu namorado, que serão as únicas pessoas com quem terá contato diário, porque também não vai sentir vontade de iniciar papo com nenhum de seus amigos. Apenas quando você se render a algum vício, seja cigarro, Coca ou qualquer outro, vai pensar que o mundo tem sentido. Sua vida Carpe Diem, que criou no fim do ano passado, vai parecer ter perdido a função e, mesmo que todos tentem te animar, ninguém realmente saberá o que estiver falando. Você vai ver tudo como palavras vazias, promessas infundadas como aquelas sobre o homem ser bom, sobre ter alguma entidade te protegendo, etc.

Durante esse período, você vai entrar em muitos caminhos que antes pareciam bloqueados. Depois de passar meses seguidos vendo séries - muitas vezes desprovidas de conteúdo realmente agregante –, encontrará canais de divulgação científica que te farão olhar de novo para a Física, a Química, a Sociologia e a Filosofia que você tanto amava quando era mais novo. Vai entender assuntos que antes pareciam muito distantes da sua realidade. Nesse meio tempo, você negociará com o Universo e pedirá pra tudo isso acabar para que possa sair desse quarto e entrar em contato com a vida de verdade, não essa exibida na tela do celular.

O seu aniversário vai ser icônico, porque vai querer ficar sozinho e não falar com ninguém. Vai montar o quebra-cabeças gigante que ganhou e, como presente da Netflix, você vai passar o dia todo vendo os novos episódios de Dark. Mais uma vez, você vai pensar que é o centro do Universo – veja o Weltuntergang acontecendo no dia do seu aniversário – e que tudo ao seu redor é mera simulação, então não tem problema deixar pra ver as felicitações no dia seguinte. As pessoas ao seu redor vão achar triste essa escolha, mas você vai saber que isso te fará bem. E fará.

Algum tempo depois, receberá a notícia de que as aulas voltarão. Você não terá pensado isso até então, mas está com muita saudade das aulas. Agora, você terá retomado seu gosto pelo estudo e, já na primeira aula, você vai se sentir um fracasso. Não é possível que a faculdade seja tão difícil, não é mesmo? Mas isso vai ser bom, você entenderá – FINALMENTE – como sua mente funciona. Antes, você achava que tinha um bom nível de autoconhecimento, só que poderia aumentar ainda mais. Surpreendentemente, pela primeira vez em muito tempo, você poderá ser considerado um bom estudante – não apenas um bom aluno baseado nas suas notas. Você vai voltar a sentir orgulho de si mesmo e vai se engajar nas suas metas acadêmicas o máximo possível. Você saberá que a situação não vai mudar tão cedo, então vai passar a correr atrás de melhorar seu currículo enquanto pode.

Seis meses de isolamento e você conseguirá ter passado por todas as fases do luto. A normalidade morreu e agora eu aceito isso. Não existe a possibilidade de o mundo voltar ao que era antes devido a tudo que foi debatido e vivido nesse período. Da mesma forma, eu também não sou mais o mesmo e fico feliz por isso. Aprendi coisas sobre mim, sobre a vida, sobre a ciência e sobre o Universo que não quero perder. Sei que você estará pleno em setembro e mais ajudando os outros do que os atrapalhando. Então, te peço, por mais difícil que essa caminhada possa parecer, não tome nenhuma outra.

Cada momento ruim que você vive, cada versão falha de você, cada péssima notícia que recebe são parte da sua vivência. Você não apenas se constrói com as coisas boas, como já tinha visto em Divertidamente, mas também com as más. Portanto, encerro essa carta apenas falando: buon viaggio!


Com carinho,


O Jony Pimenta (aquele do presente).



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