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Devaneios acerca de uma pandemia



Delzi Alves Laranjeira


O primeiro confronto com o vírus, inconscientemente, foi em janeiro de 2020, no aeroporto de Bruxelas, quando, ao desembarcar, avistei não poucas pessoas usando máscaras. Asiáticos. Não matutei explicações, nem me lembro se cheguei a comentar com minha companheira de viagem. Gripezinha, talvez? Os chineses possuem o hábito de usar máscara, por conta da poluição perene. Assim me contou meu compadre Cláudio, que já visitou a China. Então é isso: viajam e levam o hábito. Não pensei mais no assunto.


De volta à casa, ao final de janeiro, notícias de um vírus na longínqua China, na província de Wuhan, dizimando pessoas. Longe, muito longe. Que vírus é esse? Vai chegar ao Brasil? Dificilmente, dificilmente. Fevereiro está aí, carnaval está aí. Assisto às aglomerações. Na Europa, acompanhamos a dança do vírus: viajou, chegou à Alemanha, Itália, França, Bélgica, Espanha, Portugal. Viajou mais longe: vinte e cinco de fevereiro, primeiro caso confirmado no Brasil, importado da Itália, onde a situação começava a ficar crítica. Lavem as mãos, usem álcool gel. E sigam com suas vidas. Seguimos durante duas semanas, até precisarmos parar. Quarentena, isolamento social. Incerteza, pânico. Sem escola, sem comércio, sem “sistemas de produção”: o caos.


O que esperávamos de nossos governantes? Apoio, solidariedade, políticas públicas que funcionassem, diretrizes, um norte: “vamos atravessar esses tempos difíceis juntos!” Não é essa a fala dos grandes estadistas da história em tempos como esses? Vimos apoio e solidariedade, de fato: de nossas famílias e amigos. Formamos redes de ajuda, contribuímos com ONGs, associações, igrejas. Enquanto isso, ouvíamos o incessante discurso oficial contra a parada forçada: a economia vai acabar! Nosso mundo vai acabar! Não haverá empregos! As pessoas morrerão de fome! Haverá saques, haverá assassinatos! A distopia que líamos nos universos literários estava instalada. Sem a roda do capitalismo girando, só nos restava o apocalipse.


Enquanto isso, todos aguardando a chegada do “pico”. O pico virou metáfora para o começo do fim. O pico significa o número mais alto de infecções e mortes, mas ninguém usa essa definição. É apenas “o pico”. Depois dele, a descida, a contagem final, o alívio, “a volta ao normal”.


Nosso pico nunca chegava. Tornou-se um grande platô a partir do final de maio. Estacionou em mais de mil e trezentas mortes diárias. E o número de mortos exacerbou-se, passou de cinquenta mil, de cem mil, de cento e cinquenta mil. E não sabemos onde irá parar. “Morrer faz parte da vida”, ouvimos. “Todos vamos morrer um dia”. Por que não agora, de Covid-19? É mais uma opção, entre tantas que a nossa pátria-amada-mãe- gentil oferece: bala perdida, bala intencional, câncer, atropelamento, pobreza, fome, drogas, violência doméstica, violência policial...


E nós, que até agora sobrevivemos, contando os dias de quinze em quinze, enfrentando os medos e as perdas, assistimos a tudo isso como em um filme, como se uma tela invisível nos separasse da realidade palpável, como se a doença fosse parte de uma loteria invertida e maligna que laureia os azarados sem imunidade e com comorbidades. Assistimos, estupefatos, ao paradoxal discurso oficial que se intitula “pró-vida” e que se manifesta “pró-morte”, ao negar, diuturnamente, a gravidade da doença e suas consequências, ao desprezar o conhecimento científico e suas evidências, ao minimizar a perda de vidas em prol de uma economia que está acima de tudo e de (quase) todos.


Sigamos resistindo à barbárie que assola nossas rotinas tanto quanto o vírus —que segue, impassível, seu imperativo de se replicar —, sigamos refletindo como podemos aprender, de uma vez por todas, que é a economia que nos serve, e não o contrário, sigamos nos apoiando na arte, nosso eterno esteio. Não há como, no momento dessa escrita, visualizar a luz ao final dessa “noite escura”. A segunda onda já nos encobre, haverá uma terceira, haverá outras tantas? Os milhares de mortos que nos precederam já vislumbraram, assim nos consolamos, a sua luz nessa travessia. Resta-nos, em homenagem a eles, resistir digna e bravamente “à morte da luz”, em suas mil nuances metafóricas, como nos ensina o poeta Dylan Thomas e tantos outros lumes que nos abraçam e nos guiam em meio à escuridão dos tempos e das mentes.



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