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Disco



Viviane Alves


Há muito tempo eu estava sem ninguém, solidão era a única coisa que aflorava pelos cantos escuros do meu apartamento, a luz do sol não entrava. Minhas paredes estavam cinzas, e meu corpo estava pesado no sofá, a televisão desligada e na vitrola, pela terceira vez, o disco Transa havia acabado. Senti que era hora de levantar, ficar naquele mormaço não era interessante, nada mudaria, era o fim.

Coloquei o disco no lado b e parti até a despensa, estava com fome e era hora de me mover. Saí driblando o lixo do chão e olhei no armário. NADA! Ela havia levado tudo quando saiu, não, tudo já havia acabado e ela fazia as compras, sim, era isso. Mas eu não queria sair, a rotina havia ficado diferente nesse contexto, eu não podia me arriscar mas precisava comer.

O pote de café tá vazio; cerveja é importante ter, as últimas acabaram; macarrão é fácil de fazer; seria um dia para comer guacamole? Não, eu comia sempre com ela enquanto víamos filme. Mas já faz tempo. No caminho eu penso.

Peguei meu vidro com álcool, umas sacolas ecológicas, hábito que ela havia me deixado, minha máscara, a chave de casa e a lista. Antes de sair, juntei o lixo e as latas que estavam espalhadas pelo meu apartamento, não sabia se era dia de lixo. Saí de casa com as sacolas em mão, a máscara incomodava; “Como eu havia deixado tanto lixo lá? ”, me lembrei que era ela que limpava. Abri o latão de lixo e depois higienizei as mãos.

Era uma caminhada de três quarteirões até o hipermercado, fui rápido, tinha gente na rua e isso me assustou e irritou. Quanto tempo eu não saía? As lojas estavam fechadas e eu trabalhava de casa, fazia quanto tempo? As sacolas tinham o cheiro do amaciante dela. Peguei fila para entrar no mercado, desde quando estava assim? A fila não andava e o cheiro do amaciante estava mais forte, ou seria um perfume?

Fiz minhas compras e sacolas novas.

Cheguei em casa e tirei os sapatos, coloquei as compras na mesa e as higienizei, um bule de água foi ao fogo, mas não lembrei do porquê. Faltava o banho. “Eu fechei a porta? ” Respirei fundo e me veio o cheiro de amaciante, mas eu havia deixado as sacolas. Voltei a porta, ouvi o disco caminhar para outra faixa, o tempo que fiquei parado a água ferveu. Me sentei no sofá, a água secava e meu corpo não reagia, o cinza ficava mais forte e eu viajava junto à música.


“Me desculpe, passei rápido para pegar algumas coisas que esqueci.”





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