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Ela, a professora.

Atualizado: Out 20



Glêsiane Viana


Ela sempre gostou da escola...Talvez por isso, nunca quis sair dela. E, para ficar na escola, tornou-se professora.


Gostava de estudar, de estar sempre aprendendo. Concluiu no tempo certo o ensino médio e com boas notas. Mas não imaginava que não seria tão fácil quanto planejou chegar ao seu sonho. Deparou-se com o primeiro empecilho, que a iria acompanhar durante o bom tempo: a falta de dinheiro. E lá se foram três anos, três longos anos entre o fim do ensino médio e a entrada na faculdade, que só se deu em função de uma bolsa.


No entanto, ela estava lá, firme no seu propósito, mesmo que ele não tivesse assim tão bem delineado. O que seria melhor? Questionava-se. Se aventurar pela área de exatas, onde tinha certa facilidade ou ceder à sua derradeira vontade e cursar Educação Física? Não precisou escolher, pois, afinal, o destino por ela decidiu... Mas isso não era importante. O que importava é que ela queria estar de volta na escola.

Enquanto o retorno não ocorria, ocupava as suas tardes com aulas particulares, ensinando àqueles que tinham várias dificuldades diferentes. Começou a ministrar aulas antes do término da faculdade, mas ainda não estava satisfeita, não era ainda professora.


Findados os quatro anos, ela conseguiu. Estava de volta à escola... Meu Deus!!! Mas não estava preparada. Quantas e quantas dificuldades em seu caminho apareceram! Teve medo, teve raiva, ficou decepcionada, quis desistir. Mas ao mesmo tempo, conheceu pessoas e aprendeu novas coisas. Fez muito mais do que ela imaginava fazer. Estava feliz com sua vida na escola, com seus alunos, com seus amigos que lá conquistou.

De repente, veio a pandemia. Pandemia? Inicialmente, ela nem imaginava o que isso seria ou que significaria em sua vida. Acompanhava nos noticiários informações de outros países, que mostravam uma nova doença contagiosa, que se espalhava depressa e que não escolhia a quem contaminar. De uma hora para outra, o mundo se viu necessitado de medidas drásticas para conter o contágio. Os governos passaram a decretar medidas de isolamento social. E as lojas se fecharam, os cinemas baixaram as portas e a escola... a escola teve que parar de funcionar! As aulas presenciais foram suspensas.


Isso vai passar rápido, pensou ela. A ciência rapidamente entenderá a doença e proporcionará uma solução, assim ela acreditava. Os meses foram passando... E de repente usar máscaras e passar álcool gel se tornaram atitudes corriqueiras em qualquer lugar que se visitava. Quanto incômodo isso provocava! Ela gostava de ver os sorrisos e de abraçar as pessoas. Estava limitada agora a toques de cotovelo intercalados com lavagem de mãos e assepsia com álcool gel.


Mas o pior, segundo ela, era estar longe da escola, dos seus alunos, dos seus amigos. Com o tempo, estar em casa passou a ser maçante. Esperava, com angústia, a resolução de uma situação que estava longe de ter uma saída. E então, surgiu uma esperança: as atividades da escola retornariam... Ainda não seriam presenciais, seria de forma remota, mas ela estaria de certa maneira, de volta à escola.

Encheu-se de esperança novamente. Preparou aulas, gravou vídeos, elaborou atividades. Esperava muito que a situação dessa vez fosse passageira. Mas o remoto foi se estendendo, aumentando ainda mais a distância. Sem respostas de atividades nos e-mails, sem câmeras ou microfones ligados. Na tentativa de unir, a tecnologia afastou e as exigências e adaptações à sua nova maneira de trabalho foram sobrecarregando-a de forma física e emocional.


Percebeu que trabalhar em casa se transformou em um acúmulo de tarefas que antes desempenhava em lugares e locais diferentes. Não sabia mais quantas horas trabalhava por dia, o que deveria priorizar ou quem deveria atender. Sua vida tinha se transformado em uma bagunça.

Sair era necessário, mas ao mesmo tempo perigoso. Tinha medo de se contaminar, comprometer a saúde de sua família. Mas foi durante uma saída, em um dia ensolarado, que passou pela porta da escola. Parou por lá, quase que por instinto, mesmo sabendo que não poderia demorar. Olhou por cima do muro os corredores vazios. Lembrou-se de quantos momentos aquele lugar havia lhe proporcionado. Ah, quantas sensações! Sentiu saudade de tudo, do barulho da sala, do amontoado de alunos sobre ela no momento do anúncio das notas, das conversas na sala dos professores... Por um momento, se sentiu acolhida novamente. E percebeu que não poderia parar... Lembrou o porquê de ter escolhido ser professora. Sim! Ela gostava da escola! Sim, ela nunca quis sair dela. Ela não poderia desistir, não poderia desanimar. Respirou fundo, virou-se, continuou o seu caminho. Mas desta vez, pensava diferente. Pensava que poderia fazer a diferença... Meditava sobre o que fazer para se cuidar, afinal, não poderia abandonar quem dependia dela. Divagava sobre o retorno à normalidade, mesmo que essa normalidade assumisse novos parâmetros. Afinal, o importante era, para ela, estar na escola...


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