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Isolamento = transtorno




Sophia Ávila Lima


Há alguns meses minha vida foi tirada de mim. Estou morrendo? Espero que não. Minha vida foi tirada de mim. Sou jovem? Certamente. E minha vida foi tirada de mim. Palavras ousadas demais para alguém tão novo, certo? Com certeza, mas meu brilho pela vida não se perpetua mais.

Utilizo tamanha hipérbole para contar uma história, não, uma vivência, um sentimento...ou vários. Há mais ou menos nove meses eu era uma jovem com um plano intacto, queria frequentar a faculdade e trabalhar, me divertir e rir alto, aproveitar cada segundo do fim dessa era em que estava vivendo. Muitas expectativas, eu diria. E há sete meses tudo foi colocado por água a baixo. Me disseram que não poderia sair de casa, ou morreria. Me disseram que não poderia ir à escola, ou adoeceria. O mundo estava em isolamento, nossas vidas pareciam areia de ampulheta, presas por vidros, caindo um grão de cada vez.


E bem no meio do isolamento, pessoas doentes, alertas nos jornais...algo aconteceu dentro da minha cabeça. Sou o tipo de pessoa que confia no amor, o respeita e acolhe, e em determinado momento desastroso, meu coração foi traído, e meu amor próprio se pôs recluso. E foi aí que me senti desmoronar.


Sem contato, eles disseram.


Enquanto vivia o inferno do mundo em pandemia, também enfrentava meu purgatório pessoal. Passava dias sem comer, dormir era uma palavra vazia, somente usada para enganar os pais ao invés de preocupá-los. Por meses me deitei em minha cama, chorando, querendo saber o que fiz de errado, me perguntando quando a dor do meu peito e o cansaço da minha mente iriam desaparecer. Me olhava no espelho e tudo o que enxergava eram ossos e um rosto, que um dia foi dito como belo, coberto por olheiras escuras e profundas com um toque de morbidez. Um morto vivo, era o que via. Todos diziam: “levante a cabeça”, “se alimente”, “não vale a pena”, “se ame”, “fique bem”. Eu os ouvia, porém só conseguia responder com um choro silencioso e desesperado dentro de mim enquanto acenava, sorria e concordava dizendo “eu sei”.


Já havia se passado quatro meses de isolamento, o obrigatório e o que eu mesma tracei, e tudo que meu corpo seco e exausto conseguia fazer era me pedir perdão em palavras vívidas e em uníssono na minha cabeça, proclamando e suplicando: “por favor, me perdoe, me perdoe por essa fraqueza que estou-lhe permitindo passar”. Parece o fim, não parece? Mas não foi.

No quinto mês presenciei os amores que me deram a vida tão preocupados ao ponto de chorar. Foi quando me olhei no espelho pela primeira vez em tempos e disse “chega!”, eu não era assim e não me permitiria ser, eu não seria a pessoa que se lamenta e se permite adoecer por situações que não foram sua escolha, não seria a pessoa que justifica a falta de vida com o sofrimento, eu não poderia ser. E desse dia em diante acordei todos os dias tentando encontrar um só motivo para seguir em frente. Já que com a pandemia eu não poderia sair para me distrair ou sequer visitar meus amigos, comecei a enlouquecer, a pensar que não era forte o suficiente, e esse clima doentio de pandemia iria me vencer. A ansiedade latejava no meu peito todas as noites, acordando com razões para levantar e dormindo sem conseguir pensar em nenhuma para o dia seguinte, crise após crise, surtos de pânico, dor e falta de ar, eram tão frequentes que me assustava, tão frequentes que tudo que eu queria era desistir. Mas eu não podia, por eles, pelo velho eu...


Semanas se passaram, um dia de cada vez, e levantar pela manhã se tornou mais fácil, as crises se cessaram aos poucos, e finalmente pude ter uma longa noite de sono tranquilo.


Estamos no sétimo mês, as regras relaxaram. Que tenha contato, disseram.

Mas a batalha é a mesma.


Estou crescendo, dia após dia tento dar meu melhor por mim mesma, é uma luta interna difícil, com recaídas ensurdecedoras que me dão vontade de sentar no chão chorando e gritando, e às vezes é preciso me olhar uma vez no espelho e me lembrar que o amor que tenho por mim tem que ser, e é, maior do que qualquer crise. E sei que posso afirmar que nesse ano difícil e caótico, capaz de jogar todos nós ladeira a baixo, muitas pessoas sentem o mesmo, se sentem infelizes, incapazes, silenciados e desesperados. E para eles só consigo pensar em uma última frase poética repleta de clichê, se lerem isso, seres humanos, lembrem-se de respeitar suas almas e seus sofrimentos, porque não somos fracos por passarmos por isso, somos fortes por ainda assim levantarmos todas as manhãs para respirar fundo mais um dia.



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