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Luís Fernando Amâncio


O elevador


Lavou as mãos, passou álcool gel. Pôs a máscara e pegou as chaves do carro. Será que as chaves estavam limpas? Tornou a lavar as mãos, esfregando-as o tempo de cantar “Parabéns pra Você” duas vezes, como sugeriram na TV.

Tornou a passar álcool gel nas mãos – a maçaneta podia estar infectada. Chamou o elevador. Mais álcool gel.

Lá dentro, encontrou a menina do 501. Carinha de anjo, 12 anos no máximo. Seu hálito de aparelho odontológico empesteou o ambiente. Ela disse “bom dia” e as gotículas de saliva se espalharam pelo ar. O demônio assume diversas formas. Prendeu a respiração. Já fizera aulas de natação, era bom com isso. Mas a menina tossiu e ele ficou desesperado. Saltou no andar seguinte.

Na volta, vai subir os 12 andares pela escada. Para não correr riscos.





Odaliscas


Jandira estava certa. Ele tinha um problema. A sentença, quando a ex-namorada destravou seu celular e observou suas trocas de mensagens, soou exagerada na época. Um pretexto para terminar o relacionamento.

Mas era verdade. Reconheceu o problema quando as clientes do supermercado, utilizando máscaras, se tornaram sensuais odaliscas. Só via seus olhos e era o necessário para imaginar: como seria o sorriso desta? E os lábios daquela, seriam carnudos?

Logo, ele se metamorfoseou no rico sultão, como nos filmes antigos. Roupas elegantes, servos o abanando. Pronto para ser saciado.

Seu harém era democrático: coroas e novinhas, mulatas, orientais, europeias. Mulheres de todos os pesos e de todas as alturas. Um banquete exótico. E, com a cabeça na fantasia, ele colocou produtos de limpeza com alimentícios na mesma sacola, misturou compras de clientes diferentes. Uma bagunça.

Era um problema e estava atrapalhando. Mas, caramba, dois meses e nenhum matchizinho no Tinder! Ia mesmo ficar doido.


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