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O não guia do confinamento




Luiz Gustavo Leitão Vieira


Como qualquer ser alfabetizado (ou não) notou, todos estão imbuídos em nos aconselhar sobre o que fazer durante o isolamento imposto por nosso companheiro de todas as horas, o COVID-19. Há terapeutas de todo tipo, que cuidam de toda e qualquer parte de nossos corpos e nossas mentes, há técnicos em coaching, psicanalistas, fisioterapeutas, personal trainers, nutrólogos, nutricionistas, pediatras, cardiologistas, infectologistas, oncologistas, consultores econômicos, economistas, astrólogos, massagistas, advogados, professores, jornalistas — toda e qualquer formação conhecida, ou ainda a ser desenvolvida, ou já há muito esquecida e superada, tem algum conselho, alguma sugestão, dica, regra, orientação, para ações benéficas. Em resumo, todo mundo dá pitaco.

Eu, por outro lado, não quero me meter na vida de ninguém e não dou exemplo para nada. Decidi, assim, preparar um guia do que não devemos fazer nestes dias. Ou um não guia; um não manual. Por favor, leia atentamente, anote, e não repita nada do que vem a seguir:


(01)

Não se afaste de seus vícios. Vícios ajudam a lidar com a ansiedade, relaxam e, por implicar consumo, mantêm a indústria da morte ativa, preservando empregos. Beba, fume, jogue. Ademais, por ser um período extraordinário, incomum, tenso, não há culpa: você bebeu porque estava doido. E todos entendem e aceitam.


(02)

Não pratique exercícios físicos extremos. Se você se contundir, não há vagas em hospitais, seu médico não está atendendo, clínicas de fisioterapia estão fechadas, medicamentos estão mais caros. Devemos ficar em casa, então nada de sair correndo como um desvairado pelas ruas — confinamento significa clausura. A rua não é lugar para você.


(03)

Não pratique exercícios físicos leves. Eles não servem para nada e você tem a desculpa do item 1: não há culpa, pois são tempos de exceção.


(04)

Não comece a assistir séries. Para início de conversa, uma história que exige dezenas, talvez centenas, de horas para ser contada, está mal contada. 10 temporadas de 20 episódios? Prolixo. Nem Shakespeare nem Homero precisaram disso para contar as melhores histórias do mundo. Só Tolstói chegou perto e tem hora, em Guerra e Paz, que queremos cortar o saco. Há também o risco de você se deixar levar. Aí, quando sairmos dessa merda (se um dia sairmos), você vai continuar varando noites, deixando de sair com amigos, de ficar com seus filhos, deixando de transar, para ver “só mais um episódio.” Não vale a pena.


(05)

Não estabeleça rotina. Se você estabelecer rotina, há o risco de se acostumar, de aceitar que, de alguma forma, sua vida está normal. Ela não está. Isso vai passar. Viva como se desfrutasse de prolongadas e merecidas férias: durma tarde, acorde tarde, almoce às 15h00, não jante, coma chocolates e beba muita Coca-Cola. E não abra mão de um cochilo depois do almoço.


(06)

Não fale com amigos e familiares. Você está ansiosa(o), deprimido(a), eles também. Você ouviu algumas histórias tenebrosas; eles sabem, de fontes confidenciais, de notícias de tirar o sono. Conversas com amigos e familiares são disseminadoras de medo e pânico, e de fake news. Conversar com as pessoas é um círculo vicioso de dor, angústia e sofrimento. Opte pelo contato via rede social: superficial e inócuo.


(07)

Não ouça música. Não leia livros. Não veja bons filmes. Isso só vai te lembrar que cinemas estão fechados, livrarias quebrando, e shows cancelados. Também há o risco de você pensar asneiras do tipo: “poxa, agora tenho tempo livre. Vou escrever aquele conto que sempre quis.” Se não escreveu antes, não será agora, surtado e preocupado, que vai sair algo. E você não é escritor, músico ou diretor de cinema: é médico, engenheiro, professor, economista, psicólogo, arquiteto...


(08)

Não economize dinheiro. O mundo e, em especial, o governo brasileiro estão se mobilizando para mitigar os efeitos econômicos da pandemia. Quando isso acabar, os bancos vão oferecer crédito baratinho. Todo mundo vai ficar louco para consumir, economia vai aquecer e você vai ganhar todo o dinheiro de novo.


(09)

O mais importante: não se preocupe. Não há nada a fazer. Na verdade, realmente, de fato, estão todos te pedindo para fazer exatamente isso: nada. Fique em casa. É a regra. É a ordem. Sua contribuição é fazer nada. Então, se não há nada a fazer, para que se preocupar? Tudo está nas mãos de Deus, de nossos líderes, e do vírus.


(10)

Não me escute.



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