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Passarinho

Atualizado: 5 de jan.



Hélio Rodrigues de Oliveira Jr.


O paradoxo do tempo vivido, sabia ele, é que o tempo não recua em si mesmo: só na memória. Decidiu, então, resgatar seus sons. Criou passarinhos em gaiolas.


A certa altura, resolveu ofertar-lhes a escolha: fiquem e (en)cantem, nada lhes faltará; as portinholas estarão abertas, quando eu estiver a lhes cuidar; se quiserem, podem ir e voar; elas permanecerão abertas, caso queiram voltar.


Num dia de sol, um deles decidiu passear. Voou livre, sem pressa, explorou o lugar. Acreditou na promessa, não tinha razão para duvidar.


Meu pai subiu ao terraço, segurou a gaiola no ar. Segui ao seu encontro e perguntei o que ele fazia lá. Ouvi de volta: simples, meu filho, se ele quiser retornar, só me resta ficar aqui e esperar. Perguntei, novamente: quer um banquinho, para não se cansar? Rimos juntos. Desci. Pensei; isso vai demorar...


Passados pouco mais de cinco minutos, meu pai estava na sala, com o canário na gaiola, cantando sem parar. Os dois estavam felizes. Eram amigos a se encontrar.


O tempo passou, esse gosto também. Papai desfez-se dos viveiros, abandonou as gaiolas. E, noite dessas, vejam só: virou passarinho, voou e (en)cantou. Livre, enfim, com amor demais, deixou-me as memórias.















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