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Presentificação



Radamés Andrade Vieira


Acho que sempre divisei o mundo com as pupilas do bebê na cama, espreitando a lagartixa peregrinando pela parede do barracão: duas chamazinhas bisbilhoteiras e dadas a incandescer frente aos alvoroços da vida. Éramos eu e aquela mocinha sobressaltada que ensaiava rompantes de mãe. Acho que meu espírito sempre foi pênsil, dependurado num istmo entre a favela e a última rua daquele bairro grã-fino, aninhado numa cidade pubertária. Cenira e Geraldo, meus dois velhos, imensos e repletos de desamparos, inocularam no meu ser o que em certa medida tem sido um pouco mais do que a mímica de seus gestos. E depois, tem a Shirlei, a Liane, a Sandrinha, o Alex, a Elaine e o Eli, prodigiosos platôs nos quais deito um antigo coração ávido e vacilante de amor. Meus irmãos também aprenderam a palmilhar as algazarras e os silêncios da vastidão que era aquele barracão, com seus cubículos, na vida morna que palpitava entre as ondas de amianto sobre nossas cabeças e o triturado de cinábrio sob os nossos pés. Vida frugal, mas inturgescida em caldo grosso e pegajoso. Nessa morada fiz meus primeiros amigos.


Hoje, estamos cá, eu e meus dois mimos, Sandra e Heitor, dentro de nosso carinhoso arabesco. Em quarentena, fico aqui sorvendo memórias que rebojam em espiral dentro de mim, imagens de amores repletos de rabugices e meiguices. Meus irmãos e eu, decerto, temos assoreados em nós, os acalantos sazonados no minadouro daquelas abundantes preocupações domésticas, a imagem dos semblantes contundidos de nossos pais e aquela ternura que lhes foi sendo saqueada pela vida, mas cujos sedimentos restam em pequenos espólios, confidenciados aqui e ali, com um e outro, e afinal, com todos, porque os pais são de todos. Não sei se nos abraçamos direito, se nos beijamos de modo aceitável, se esgarçamos suficientemente a rigidez da membrana que sempre fez de nosso amor, uma ceifa de pequenas tormentas, refregas e gestos retraídos, débeis e abstinentes. Só sei que agora sou um pêndulo sobre um precipício de medo e ansiedade, com os meus apetites à flor da pele, pulsando por um banquete que nunca saberemos ao certo a quem e a quantos de nós será dada a honra de partilhar. E a tanto vão as angústias que não se atalham apenas aos que foram embebidos no visgo placentário da casa de meus pais. Fui improvisando uma Macondo povoada de almas, e nessa aldeia de vida própria, tal como nos romances do velho Gabo, as boas e más estórias vêm boiando, intermitentes, como o feijão no alguidar.


E nessa aldeia tem os amigos – ah, os amigos! Sim, com eles aprendi que só é possível “respirar os pesos da vida” com as boas gargalhadas. Não que eles apenas estejam ao meu lado nessas horas, já advirto aos incrédulos e às suas imprecações. Mas é com risos largos, tirados de nossos alforjes, que enfrentamos as dores da vida. Por isso, tenho a convicção de que o mundo não sairá melhor dessa quarentena. Eu e meus queridos amigos, se os conheço bem, sairemos com o renovado desejo de contrabandear, aqui e ali, as pequenas fagulhas dos olhos embebedados de generosidade, ternura e das boas gargalhadas.



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