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Sobre livros e afetos




Carina Adriele Duarte de Melo


A autora recomenda: leia ao som da música



Marina limpava a estante de livros cada vez que deixava uma casa ou um relacionamento. Convivia bem com ácaros e pelugem dos gatos que perambulavam nos sofás.


A solidão da quarentena lhe deu uma mania nunca antes viva: limpar, limpar, limpar só pelo simples prazer de realizar algo manual, sem precisar pensar em nada.


"Dividir os livros entre lidos e não lidos?" – difícil, comprara tantos títulos no último ano que agregar os não lidos na mesma prateleira lhe traria ansiedades.


"Talvez pequenas seções temáticas?" – poderia funcionar. "Didáticos, infanto-juvenis, coletâneas... e onde colocar O Banquete? Filosofia?" Como era difícil catalogar e adjetivar certas histórias.


"João Guimarães Rosa vai para o J ou G, como me lembrarei dele na hora de procurar?" – perdia-se em pensamentos desimportantes. Ficava horas e horas com a flanela, a taça e as memórias. Vez ou outra, os olhos marejavam ao ler uma dedicatória antiga: "Para você, que lembra do seu pai como eu lembro do meu." Suspiro. "Por onde andará o autor daquelas palavras em Bic azul?"


Lembrou-se de que, na atual seção de biografias, ficavam os vinis de um amor antigo. Para ela, os términos eram sempre mais dolorosos quando era chegada a hora de separar os bens da estante. Riu... cantando mentalmente a canção de Chico: “A Rita levou meu sorriso/ No sorriso dela/Meu assunto/Levou junto com ela/E o que me é de direito/Arrancou-me do peito/E tem mais/Levou seu retrato, seu trapo, seu prato/Que papel!/ Uma imagem de São Francisco/E um bom disco de Noel".


Seu primeiro namorado a privou da coleção completa do Monteiro Lobato – tudo bem ser dele desde criança, mas estando os dois ali tão juntos, ela já os adotara como seus.

“Cadê ‘Toda poesia’ de Leminski? E aquela edição comemorativa de ‘Vidas secas’? As cartas de amor de Ofélia e Fernando Pessoa?” – matutava com as mãos ressecadas pelo pó.


“Despedir-se de alguns livros dói tanto quanto findar um casamento.” – sorrindo, pensava que, se fosse ela uma figura de linguagem, seria sempre uma hipérbole.


Passava os dedos pelas peças: “Édipo, Antígona, Seis personagens à procura de um autor... Seria normal achar mais humor nas tragédias do que nas comédias?”


Já nas distopias, olhava para Huxley sem conseguir decidir se era consolo ou desconsolo pensar que o mundo podia piorar.

E ali ficava Marina, remoendo as escolhas da vida. Na quarentena, não há como se refugiar das lembranças. Ela, tão só, arrumava a estante como quem organiza a própria vida.


A melancolia do piano vibrava na casa ao lado.




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