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Tempestade



Ana Paula Martins Corrêa Bovo


Viver agora é em barco agitado, frágil, construído para as marolas de águas quase sempre calmas. Como enfrentar tamanha tormenta com navegação tão singela? Ficar tantos dias à deriva sem ter a provisão, a proteção, o preparo necessário? Fingir não é (mais) possível, o balanço do barco é inegável, realidade sentida nos ossos, no estômago, no âmago. Arriscar-se às margens é iludir-se que a ventania nunca nos alcançará. Mas essa onda é tsunami: violenta, arrebatadora, arrasadora até mesmo de construções as mais distantes.

Sigamos o exemplo de quem, mesmo em meio a grandes tempestades, manteve a firmeza de espírito. A vida nos demanda sacrifícios inimagináveis: enfrentar a dor, a escassez, fustigados pelas águas frias da chuva incessante. E o caminho é longo, permeado por aquelas frestinhas de sol que nos enganam e nos fazem descuidar de que a viagem não terminou, de que os desafios não cessaram. De que é preciso seguir apesar do gigantesco cansaço de nosso corpo, de nossas vistas, de nós inteiros.

Entretanto, mesmo no menor barco há escolha... Quando se tem um salva-vidas, escolher usar ou não usar. Mesmo aquele que sabe nadar não está livre de fortes e insuspeitadas correntes marítimas, mas, se ele for arrastado, toda a tripulação sofrerá. Quando se tem um navio repleto de mantimentos ou mesmo apenas dois salva-vidas, escolher dividir ou guardar. Escolher contar mentiras para aliviar certa dor ou discutir com inteligência a realidade para traçar a melhor rota; escolher consolar o companheiro, apesar de nossa própria dor, ou ignorar a sua angústia; escolher falar e escolher calar, escolher amar ou não amar, odiar ou não odiar. Simples assim. Grandes escolhas são necessárias para seguir adiante preservando o maior número de vidas, mas são as pequenas escolhas que garantem que cheguemos à estiagem com as almas preservadas.

“Navegantes, nossos roteiros de viagem dirão de nós o que fomos”. Nossas escolhas definem o que vamos nos tornando...



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