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Tropéis.

Atualizado: há 3 dias



Radamés Andrade Vieira


Coletivo é uma das designações com a qual estimamos aqueles veículos automotores que perambulam pelas avenidas, arremetendo sobre os subúrbios de nossas cidades. No prumo do volante de um desses coletivos, meu pai aprumou-se na vida. Uma vez ele me tirou para uma brincadeira – eu, que ainda garoto, sempre levava para ele a marmita a um dos atracadouros de suas viagens. Sentou-me num camarote privilegiado, aquele assento perto da porta, à direita do chofer. De seu compartimento, meu pai deu vida ao mecanismo e numa dança cadenciada, com seus pés se alternando nos pedais, girava o volante e desenhava em rudes golpes no câmbio de marcha a solene gramática de um ofício. Sim! Naquela tarde, meu velho me tirou para dançar, colocando-me como que a rodopiar nas franjas de um carrossel. Naquele dia cavalguei por veredas que eu ainda não conhecia, tal qual um Sancho Pança nos cascos daquele pangaré de seis rodas, mimetizando o galope vagamundeado nas desventuras de meu progenitor, um Quixote a conduzir em rédeas firmes seu Rocinante. Meu mundo exuberou-se! Como me avolumei da beleza daquele fazer de meu pai! Acho que me envaideci tanto que até hoje não dirijo, quase aos cinquenta anos. Talvez tenha relegado essa façanha à esfera do sagrado.

Outra memória que tenho de certa intrepidez de meu envelhecido herói é já da adolescência, quando o flagrei, fortuitamente, cavalgando o já não tão mais fascinante veículo, na principal avenida da cidade. Ele garfava algo de sua marmita enquanto o ônibus estava parado num dos semáforos. Naquele dia vi que o cultivado ofício, por vezes, lhe feria a dignidade. Como podia meu pai debicar suas refeições de semáforo em semáforo, entre um curto transcurso e outro, em plena corrida? Entendi depois que isso não era fortuito, mas parte litúrgica das suas penosas condições de trabalho em meio ao tráfego daquela metrópole. Vislumbrei, então, aquele abatido homem sentado na pequena velha ilha de seis rodas, ruminando desamparos e resmungando silêncios. Naquele lugar meu pai golpeou a jazida de cuja densidade pétrea esboroou a matéria aluvial com a qual ele mesmo se fez. Meu velho sedimentou a si e a sua família detrás do leme de um ônibus.

Mas o que é um ônibus? Um viveiro de criaturas proscritas, ornado de pequenas vitrines por onde se abre o mostruário da animália urbana em sortidas combinações. É um container a arrastar essa preciosa mercadoria chamada força de trabalho de um canto a outro da cidade. Sempre tive a idiossincrásica presunção de que deixar de me aventurar nas viagens de ônibus seria uma espécie de traição em relação à minha classe. Parece uma dessas veleidades tolas dos tempos em que esgrimamos nossas utopias contra o coração enguiçado de um mundo que já desistiu de si. A natureza pode até não ser compassiva face às nossas veleidades, mas não podemos admitir um mundo muito maior que nossos apetites e delírios, pois de outro modo, ele também pisotearia, com pouco-caso, a terra sagrada de nossos encantamentos. Sem um mundo fabulado, o que nos restaria? A natureza! E a natureza é, simplesmente! O mundo não! O mundo foi babujado semioticamente pela nossa saliva. Por que não querer pôr nele nossa mais genuína marca de nascença? Foi através da disposição de uma criatura que traz na remela de seus olhos, em todas as manhãs, o pó das estrelas, o pólen dos sonhos sazonados nas plêiades temerárias das noites, o grão colhido em constelações de ilusões por lá semeadas, que fizemos do mundo um lugar hospitaleiro. Foi devaneando assim que devassamos a tez macia da terra e argamassamos em densidade mineral e em suntuosidade vítrea as cidades.

As cidades..., ah, as cidades! Essas incubadoras artificiais, com seus vaivéns. E lá está o ônibus, para não perdermos o rumo de nossa prosa. Nele, como num desses stands de lojas, há cidadãos. E cidadãos somos todos nós, gente estandardizada nessa sempre débil democracia, com as cartas do Direito discricionariamente embaralhadas, cortadas e distribuídas pelas mãos trapaceiras daqueles que se dedicam à imantação do baralho. Sempre me perguntei a razão pela qual não são aplicadas aos tripulantes e aos passageiros dos transportes coletivos todas aquelas cutelas que visam resguardar os motoristas dos carros particulares e seus acompanhantes. Por que aceitamos passageiros desatarraxados dos cintos de segurança no transporte público, como se cintos de segurança naqueles ônibus houvesse? Pior que isso: Por que admitimos pessoas em pé dentro do ônibus? Mi mi mi, troçariam muitos. Mas, há alguns meses, quando fomos tomados pelos receios que a pandemia ensejava, muitos apressados anunciavam a conversão de uma humanidade de faces ruborizadas, agora caída em si, comovida pelos ataúdes transportando cadáveres que seriam depositados em suas valas sem que uma nesga de honraria pudesse ser prestada a quem partiu tão solitariamente. Basta o esboço de uma tragédia para que nos lembremos que na indissimulável superfície granítica do sofrimento alheio podemos ver refletido nosso semblante, aquele que não é senão o do sal da terra. Mas precisamos de tragédias, porque de outro modo não seríamos capazes de oferecer a mesma empatia àqueles que, como os encurralados nos transportes coletivos, continuam a viver a subcidadania e a indigência que estas metrópoles hipócritas solenemente cultivam.

Pandemia? O que um infortúnio como esse pode trazer de tão novo numa terra tão besuntada da virulência edulcorada em tanto cerimonial e retórica barata? As liturgias sepulcrais de nossas ruas, casernas, tribunas, cátedras e alcovas, de nossos consultórios, salões e altares reverberam em zunzuns, cinzelando duras cicatrizes na memória. Toda uma casta de fidalgos ensebada e mesquinha – uma “gente caricata” estrebuchando-se no azedume de suas inócuas empáfias – deixa um reluzente rastro de desocupado diletantismo e de retórica banal. Que me perdoem as lesmas a comparação, mas me lembrei daquele rastro, daquele visgo, daquela solvibilidade provocada pelo sal. O sal... o sal da terra! Mas os seres acanhados, preteridos no banquete, fingem distração. Trocam cautelosamente as ataduras e o unguentos que guarnecem a membrana sulcada das patifarias humanas. Os desterrados dos transportes públicos sabem bem a reputação que a cidade lhes reservou.

Quantas vigílias fiz e quantas histórias vivi dentro de um ônibus! Ali, um mundo heraclitiano, com seus movimentos e suas trocas, flui continuamente. A vida da periferia, com sangues, odores, ruídos, espasmos, tal como no caldo grosso do mangue, “exalastra” exuberância e miséria. Não essa vida gourmetizada, untada em gel e manufaturada em couro industrializado, mas a vida que traz em si os ecos das memórias sonâmbulas, estes espectros que clamam pelo sol ou que uivam para a lua. Na quarentena, procuro esse zumbido, essa sacolejante vida que ainda é uma trégua contra o tolo e abatido consumo do petróleo fóssil em suas ejaculações.

O velho carroção, com suas marmitas, pipocas, pururucas, jujubas, analgésicos, anti-inflamatórios, corticoides, bombinhas, escovas, pentes, batons, rímeis, blushes, chocolates, latas de cerveja e refrigerantes, livros, fones e o brilho cada vez mais hipnótico dos ecrãs. Cochilos, queixas, gargalhadas, sorrisos, caretas e semblantes mumificados por uma jornada de trabalho que deita, inexoravelmente, para esses pobres labutadores, a ampulheta do tempo. A saudade dela, a saudade dele, a saudade de si. Vidas escoadas em idas e vindas nos fotogramas que passam na celulose das janelas desse viveiro, um criadouro de gente virtuosa, de gente viva e barulhenta, de gente dependurada nos trapézios de uma vida trôpega em seus desatinados tropéis. E lá meu pai ensinou-me a dançar.




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