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Um olhar que plaina



Zelinda Martins


A pandemia. De ser ‘pan’, já instiga. Não é coisa pequena.


É causada por algo pequeno, mas não tão pequeno que chegue a ser nano. É microscópico, mas máquinas potentes lhe reconhecem a majestade: tem coroa, que o faz ser conhecido como novo coronavírus.


E causa a covid-19, que ninguém conhece bem e não se sabe como enfrentá-la. Sim, é uma doença que se mostra aos poucos e vai mostrando a que veio. A despeito de ser uma visita indesejada, é insidiosa e faz que não é com ela.


Faz estrago entre os súditos que teimam em deixá-la menor do que é, que não lhe reconhecem o poder. Sim, há muitos bobos da corte que lhe chamam ‘gripezinha’.


A doença faz de nossos sentidos as suas armas.


O tato, tão importante, que permite medir o carinho e nos avisa de perigos... ‘Isso é quente!’ ou ‘Aquilo fura!’. Esqueçam... É para lavar, lavar, lavar... Lava-se tanto que se perde o perfume deixado pelo toque do ser amado, do perfume único que fica depois de tocar o filho, da fragrância das ervas usadas no prato preferido. Agora, o cheiro é de sabonete ou de um gélido álcool. Acostumem-se!


A visão. Sim, nada de enxugar com as mãos as lágrimas, sejam de rir, sejam de chorar. E é melhor que se cubram os olhos com óculos e outros equipamentos que nos fazem parecer protótipos de astronautas.


O paladar e o olfato, o vírus os boicota. Simples, assim. As percepções de azedo, doce, amargo, salgado... Para quê? Vamos nivelar por baixo, pelo insosso. Sentir a fragrância de flores? Que supérfluo... Sentir o cheiro do que já não tem validade? Que bobagem... As máscaras cobrem a boca e o nariz, barrando a contaminação nas duas direções: ‘Eu não contamino você. E você não me contamina’.


E, por fim, a audição. Esta é diferente, porque o vírus não faz nada com esse sentido. Quer dizer, por enquanto, já que ele se mostra aos poucos. Muitos fazem ouvidos moucos para a informação, para o que a ciência fala. Estamos em tempos em que a ciência grita, pois está inconformada de não ser ouvida. Então, somos nós — ou parte dos seres humanos — que insistimos em não ouvir e acatar os avisos. Nisso, o vírus avança, fazendo vítimas. Ele tem por aliados os que o ignoram, o subestimam.


Mas há outros sons que a humanidade não ouviu. Ou até pode ter ouvido, mas não soube dar importância. O som da motosserra que ceifa as árvores grandes e que, ao caírem, arrastam as menores, formando clareiras. É a exploração da madeira. O barulho da máquina que joga no rio a água cheia de mercúrio. É a exploração da terra para lhe extrair o ouro. O barulho da arma que caça animais para alimento. É a exploração da fauna. O barulho das buzinas dos carros e ônibus que engarrafam o trânsito e os ouvidos, atendendo ao sagrado direito de ir e vir: ‘Camada de ozônio? Serve para o quê, mesmo?’ Daí, começa a se ouvir o som dos animais da mata, da floresta, perto das cidades, pois já não há mata e floresta. ‘Acredita que um macaco estava na minha varanda? ’ ou ‘Encontrei uma onça na minha garagem...’ ou ‘Viram o urso mexendo no lixo daquela casa?’. Mexeram no habitat deles. Há desequilíbrio. E o vírus estava lá, sempre existiu, em hospedeiros selvagens. Mas alguns homens deram ordem de despejo aos hospedeiros e o vírus tornou-se, por tabela, um ser não mais selvagem. Civilizou-se.


A pandemia veio lembrar aos homens de que somos seres sociais. Não tão organizados como as abelhas, mas sociais. Quando queremos, até somos capazes de produzir momentos de mel. Daí, vem o ditado: ‘Dará valor quando lhe faltar’. Li uma vez e gostei da imagem: ‘O abraço é tão bom e fica-se, por momentos, com dois corações’. O beijo é tão bom, o tapinha nas costas é tão bom, dar-se as mãos é tão bom.


A humanidade será diferente, melhor, depois da pandemia. Quem dera esse pensamento ingênuo se concretizasse. A desigualdade do país ficou escancarada, como trouxe o editorial de um grande jornal. Muitos passaram a saber da existência de outro Brasil e isso é salutar. Muitos se mobilizaram para ajudar, num movimento empático espetacular. Mas há a miséria humana. Muitos se apossaram de um benefício que significava a diferença entre uma família se alimentar ou não naquele dia. Estes são seres errantes na crueldade, não humanos.


Esse é o meu olhar diante desse tempo e desse espaço de exceção. Tenho formação na área da Saúde e consigo entender o pedido implorado dos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos ... — o pessoal de frente, que briga pela vida dos outros de peito aberto, muitas vezes sem a armadura que os super-heróis ostentam — para que se sigam as instruções. Também cursei Letras e esmiúço os discursos desses tempos. Discursos que esclarecem e edificam, e outros que obscurecem e subtraem.


E a humanidade mostra que pode dar os seus jeitos. ‘Estou sozinho, mas meu canto pode acalentar a solidão de alguém...’ E dá-lhe tarantelas nas varandas dos prédios... ‘Posso organizar mutirões de alimentos e deixá-los para quem precisar...’ E tudo vai rápido, porque a necessidade é muita. ‘Posso inventar um plástico em que se encaixam os braços...’ E lá está a avó abraçando os netos.


Por uma doença que me deixa em casa, o trabalho on-line, que começou a ser necessário, urgente, já era minha rotina. Então, não há um estranhamento em não poder sair. Não passei por perda financeira. Mas sou, felizmente, um ser social. Nas minhas possibilidades, ajudo quem está em condições difíceis. A pandemia não me pegou de surpresa, não passou uma rasteira nos meus sonhos. A pandemia me trouxe reflexões e a certeza de que a humanidade, mesmo tendo tudo para melhorar, tem um lado desregrado que a lança para trás. E sobre tudo isso, meu olhar plaina...



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